Ruído como anti-capital: as the veneer of democracy starts to fade (1985)

Introdução do tradutor: Este texto foi publicado por Mark Fisher em seu blog K-Punk (http://k-punk.abstractdynamics.org) em 14 de novembro de 2004. Trata-se de uma resenha do álbum “As The veneer of democracy starts to fade”, de Mark Stewart. Considero este escrito um importante marco na produção do Fisher. Se desde a fundação do K-Punk em 2003 ele demonstrava um grande incomodo com o quietismo e a miséria da cultura de sua época, aqui, este incômodo é explicitamente politizado. Fisher enquadra claramente sua miséria pessoal (lembremos que, para ele, o pessoal é impessoal) num quadro de uma brutal luta de classes. Daí até uma teoria do Realismo Capitalista há ainda alguns passos mas o primeiro e mais difícil estava dado.

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ESQUEÇAM ORWELL

Orwell está errado sobre tudo. Especialmente sobre 1984.

Longe de ser o ano do consenso-zumbi forçado, a Grã Bretanha de 1984 [1] foi uma zona de guerra de classes onde, ao vivo na videodrome, a polícia paramilitar do Kapital multinacional esmagou os restos de um obreirismo organicista.

Tal antagonismo televisionado foi uma etapa necessária do programa de pacificação que culminaria na versão do Kapital do aparente e triunfante Fim da História.

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O não-zumbido reconfortante da polis-sem-ruído do fim dos tempos.

O sorriso de Tony.

Blair é um guerreiro de classe muito mais eficiente do que Thatcher e Macgregor puderam ser.

Sua eficácia era limitada pela necessidade do Kapital de então de que eles fossem vistos na guerra de classes.

Tony não precisa lutar. 

Não lutar é já ter vencido.

Agora é tudo administração.

O antagonismo sistêmico é só uma memória ruim. 

Ligue a TV.

Se refugie na sua toca.

Re-afine as guitarras.

Retorne à harmonia.

Bem vindos à Cidade da Liberdade.

Quanto mais ocupado você está, menos você vê. 

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EFEITOS SONOROS

“As the Veneer of Democracy Starts to Fade”, de Mark Stewart, foi a trilha sonora político-libidinal intensiva da “batalha por corações e mentes” travada entre o Kapital e seus inimigos na Grã Bretanha de 84-85. 

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Haviam passados sete anos desde que Stewart começou sua carreira como adolescente-nietzschiano Debord-comunista xamânico-incendiário gritador-histérico no “the Pop Group”.

A jornada de Stewart depois da dissolução do coletivo folk-punk o levou, através do hyperdub de Adrian Sherwood, a um encontro com o hip hop estadunidense. 

Ele imediatamente percebeu que o hip hop não é música de rua, mas uma não-música abstrata: um sítio de puro potencial sônico no qual caricaturas sonoras inumanas construtivistas podem ser produzidas sem referência a protocolos musicais de qualquer tipo. 

É tudo efeito sonoro, uma forma de manipular o ruído. 

Hiper-modernismo. O equivalente sonoro das colagens de Burroughs-Gysin. 

Um contato com Sherwood o levou aos mais improváveis encontros. O não-vocalista e decompositor-sonoro Stewart se liga à super-descolada máquina p-funk nova iorquina responsável pelos grooves pioneiros de hip hop 45s lançados por Tommy Boy e Shugarhill.

Peças integrantes:

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Keith Leblanc. Produtor das máquinas de percussão de “Malcolm X: No Sell Out”. Consegue programar baterias mecânicas para soarem como uma matilha de cachorros. 

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Doug Wimbish. Hipertecnizado Hendrix do baixo.

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Skip McDonald. Manipulador de sintetizadores e cavaleiro ceifador de tempestades funk-psicodélicas.

Sherwood e Stewart pegam esse som já inumano e o submetem a novas camadas de edição dissonante anti-musical, intercalando amostras vocais de Burroughs do Nova Express com outros ruídos de fundo deliberadamente cifrados retirados da mídia, maquinando um sinal-libidinal anti-comunicacional que te leva para o que há detrás das telas, para o acesso  às notícias do Real. 

Apocalipse Now. 

A BATALHA POR CORAÇÕES E MENTES

Enquanto o verniz da democracia começa a desvanecer, alguns dizem que os campos de internamento já estão construídos.

Quando as máscaras da civilidade são retiradas e as viseiras colocadas, os contornos da Nova Ordem Mundial se tornam aparentes.

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A destruição dos mineiros – e com eles, das ruínas de ferro do consenso do pós-guerra – foi apenas a mais midiaticamente visível das estratégias de pacificação do Kapital. Em muitos aspectos, a menos significativa.

O importante era preparar a via para o ciber-espaço do Kapital de agora. Quando todo o dissenso é patologizado ou tornado literalmente impensável. 

‘Clorpromazina’ administrada pelos ditames da Saúde Mental subjuga prisioneiro políticos realocados para hospitais psiquiátricos. 

Narco-neurotização como re-imposição de um Princípio de Realidade simulado que sustenta o Kapital contra seu limite virtual numa esquizofrenia planetária. 

Você não precisa ser louco para trabalhar aqui.

Restrinja suas demandas ao possível. 

Encontre o caminho de volta para seu dormitório. 

Privatize sua miséria. 

Lutando para pagar o aluguel, a maior preocupação é a estabilidade empregatícia.

Hora ou outra, podemos bancar uma certa luxúria. 

Quietismo.

DISSONÂNCIA/DISSENSO

Se o objetivo é disseminar a informação, por que todo esse barulho?

Por que essa distorção, essas vozes deliberadamente enterradas? Por que todas essas insinuações semi-ouvidas, essa fragmentação áudio-alucinatória, esses gritos interligados?

Por que não se comunicar claramente?

Porque a comunicação clara – com todos seus pressupostos – é o fantasma que o sistema projeta como sua justificação, seu sempre-adiado objetivo.

‘O Grande Outro… representa o senso comum ao qual poderíamos chegar após a livre deliberação; filosoficamente, sua última grande versão é a comunidade comunicativa de Habermas, com seu ideal regulatório do acordo’ (Zizek).

A polis sem ruído.

Nos dizem:

Apenas quando o ruído do antagonismo retroceder poderemos ouvir uns aos outros. 

Apenas quando retirarmos a estática de fundo a fala humana será possível. 

Policie-se e não haverá necessidade para o uso de cassetetes. 

Se intoxique e assim não vamos sedá-lo.

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A desmontagem de Stewart de seu Eu através do ruído é uma recusa dos bio-policiais de Foucault e do controle por vício de Burroughs que operam, antes de tudo, no nível da pele e do sistema neurocognitivo, sedutoramente te incitando a se constituir enquanto um ego internamente coerente. 

Stewart trata a sua voz não como uma expressão autêntica de sua interioridade subjetiva, mas como uma série de uivos de animais de laboratório, gritos enraivecidos e intensidades impessoais a serem cortados e redistribuidos ao longo da fuga ruído-hyperdub, mixado indiferentemente com sons duchampnianamente encontrados e com ruídos produzidos por ex-instrumentos musicais cruelmente distorcidos. 

Colapso da identidade através da amplificação do ruído como fuga explosiva da harmonia em todos os níveis: psíquico, social, cósmico. 

Dissenso.

EU NÃO VOU SER ESCRAVO DO AMOR

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Sempre tome o lado de O’Brien contra Winston Smith e Julia. 

Não há nada natural. Sempre desconfiem de padrões humanos biossociais pré-definidos. 

Se você quer escapar, deixe toda a merda de casal de mamíferos para trás. 

Stewart é um dos mais assíduos leitores de Burroughs. 

Não é uma questão de emulação, mas de desenvolvimento de diagramas de engenharia abstrata em diferentes meios. 

“As the Veneer of Democracy Starts to Fade” se posiciona no limite derradeiro de uma cultura underground inglesa saturada de Burroughs e delineada por Bomb Culture de [Jeff] Nutall.

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‘Hypnotized’ soa como a parte ‘I Love You’ do The Ticket that Exploded de Burroughs, sua mais impiedosamente hilária análise-dissecção do vírus de controle biopsíquico sexo-amor enquanto membrana biológica pré-programada. Melodias sentimentais misturadas com pornografia hardcore e re-tocadas como um vídeo-drome no seu sistema cognitivo, garantindo e exacerbando uma ânsia constante. 

‘Todas as faixas e efeitos sonoros de “Love” cuspidos do gravador, permutando gemidos sexuais de uma triste imagem planetária: você me ama? – Eu explodi em riso cósmico – Velhos conhecidos serão esquecidos? Oh querido, só uma fotografia?’ (Ticket that Exploded, 44). 

O céu deve estar sentindo falta de um anjo. 

Hipnotizada

Hipnotizada

Ela foi hipnotizada. 

As montagens de Stewart mixando funk construtivista-brutalista com doces canções de amor já antecipam a maneira pela qual o estômago de carboneto-de-tungstênio do Kapital iria metabolizar a hiperabstração do Hip Hop e usá-la como trilha sonora da sedução consumista dominante a partir dos anos 90. 

CONTROLE DE DADOS

O conteúdo empírico dos relatórios-denúncia de Stewart não são nada chocantes. 

7% da população possui 84% da riqueza. 

Parasitas… As maiores famílias de banqueiros do mundo… Desgraçados…

São essas as palavras dos todo poderosos conselhos e sindicatos?

O ponto não é te dizer algo mas reprogramar seu sistema nervoso. 

O controle opera reduzindo a realidade do antagonismo sistemático a uma mera crença. 

Uma faixa como ‘Bastards’ é uma arma de anti-controle bastante precisa. 

É um indutor de raiva desenhado para fazer as crenças se tornarem afetivas. Enquanto as RP de Controle conciliam e normalizam. 

As RP de controle conectam as lacunas, amaciam, acalmam, tornam impossível pensar o confronto e a exploração sem, com isso, negar a realidade em si.

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Como as colagens de John Heartfield, as costuras sonoras cruas de Stewart amplificam a distorção e a violência. 

A situação não está sob controle

Eles não estão de protegendo

É guerra

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E você também é

NÃO HÁ DIGNIDADE

Não confunda a classe trabalhadora com o proletariado.

A Thatcher inibe a emergência do proletariado subornando a classe trabalhadora com salários e com a promessa da posse de seu próprio éd-I-Pod. O conforto da escravidão. 

Ela dá falsas memórias de replicante e fotos de família. 

E assim eles esquecem que sempre foram artificiais, cultivados na fábrica para funcionar como recurso-humano para auto-replicação da Coisa-Kapital,  e começam a acreditar que são autênticos sujeitos humanos. 

O proletariado não é uma confederação desses sujeitos, mas sua dissolução no espaço cibernético globalizado. 

A população virtual da nu-terra. 

Retorno total de todo ruído

Lyotard descreve a histerização do ouvido do trabalhador quanto ele é submetido ao ruído sem precedente da reprodução do Kapital-Industrial: a incessante violência sônica de um alternador de 20.000 hz. 

O heroísmo do proletariado não consiste na sua resistência digna à inumanidade-inorgânica do processo de industrialização – ‘não há dignidade libidinal, nem fraternidade libidinal, existem contatos libidinais sem comunicação’ (Economia Libidinal) – mas na transformação duchampniana do seu prórpio corpo numa máquina inorgânica construtivista. 

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“As the Veneer of Democracy Starts to Fade” é uma máquina sônica de aceleração do processo. Uma arma de ruído anti-edípico, anti-neurótico, anti-quietista, pró-proletarização. Sinal anti-vídeo-drome. 

Insira ele no seu sistema cognitivo e deixe tocar. 

Notas

1: no original “GB 1984”, referência ao livro de David Peace de mesmo nome que relata ficcionalmente a greve dos mineiros ingleses ocorrida neste ano.