Por Alfred Sohn-Rethel, traduzido por Thales Fonseca
Nota do tradutor: Recentemente (2024), foi publicada pela editora Boitempo uma versão em português de Trabalho intelectual e manual, traduzida diretamente do alemão. Para tanto, contudo, foi utilizada a terceira edição (1989) do livro, na qual as partes um e dois foram substancialmente modificadas em relação às edições anteriores e o que originalmente eram as partes três e quatro foram simplesmente suprimidas. O texto aqui traduzido, capítulo 21 das primeiras edições (1970/1973), é resultado do projeto de gradualmente trazer para o público lusófono as referidas partes, cortadas da última versão. Para a tradução, foram cotejadas as edições em espanhol e em inglês do livro. Do leitor que acompanhar capítulo a capítulo, via 707 Publicações, pedimos a paciência de quem lê um romance em folhetim.
Na primeira parte deste livro discutimos que o trabalho intelectual separado do trabalho manual era regido pela lógica da apropriação. O socialismo, no entanto, demanda um modo de pensamento de acordo com uma lógica de produção. Isso implica que os produtores diretos pensem por si mesmo e requer a unidade entre cabeça e mão.
Nosso atual propósito é indagar as correntes dominantes do presente a partir da perspectiva desse contraste. O raciocínio implícito evidentemente se baseia no que foi explicado nos capítulos anteriores. Contudo, está destinado a ser muito mais especulativo, já que se trata sobre o presente e o futuro, e pretende servir de base a posteriores investigações.
Vimos que o trabalho intelectual abstrato associado ao sistema de produção de mercadorias é uma forma de pensamento “socializada” a priori¸ em antítese aos trabalhos físicos “[que] se exercem independentemente uns dos outros, como ocupações privadas de produtores autônomos”[i], posto que “só os produtos de trabalhos privados autônomos, reciprocamente independentes se confrontam entre si como mercadorias”[ii]. O intelecto abstrato surge devido ao fato de que o trabalho perde sua forma primitiva de trabalho coletivo, se des-socializando de tal maneira que a coesão social passa a depender da troca ao invés da produção. Enquanto veículo da síntese social, ou da “societização”, como poderíamos denominá-la, a troca se converte em troca monetária ativada pelo dinheiro ao ser utilizado como capital. Nas primeiras épocas da troca de mercadorias, o capital figurava na “forma antediluviana”, como a denomina Marx, do capital monetário e mercantil, e somente a partir desse momento toma posse dos meios de produção e os maneja através do trabalho assalariado. Não cabe esperar que a lógica da apropriação se converta em uma lógica de produção enquanto o trabalho não recuperar sua capacidade de portador da síntese social. A antítese entre trabalho intelectual e trabalho físico não desaparecerá até que o trabalho privado e fragmentado da produção de mercadorias seja convertido em trabalho re-socializado. Porém, isso em si mesmo, como bem sabemos, não seria suficiente. O trabalho re-socializado deve converter-se na força “societizante” que haveria de carregar a unidade entre cabeça e mão, o que por sua vez colocaria em marcha uma sociedade sem classes.
[i] N.T.: Excerto d’O Capital (vol. 1), de Karl Marx, traduzido livremente da citação feita por Sohn-Rethel.
[ii] N.T.: Idem.