Mao e a dilética da morte

Em 6 e 9 de agosto 1945, os Estados Unidos lançaram duas bombas nucleares. Em Hiroshima e Nagasaki. Destruição em massa em escala e velocidade jamais antes vistas. “Com essa bomba, realizamos um progresso revolucionário em termos de destruição” (TRUMAN, 2019, 42s)”, dizia, em tom visivelmente orgulhoso, Henry Truman. De fato, progresso em termos de destruição, mas também, e principalmente, em termos de medo. De um dia para o outro, a potência do sol passou para o lado dos Estados Unidos: “a força através da qual o sol retira seu poder fora descarregada contra os que trouxeram a guerra ao extremo oriente” (TRUMAN, 2019, 1 min 41s). Morte por explosão solar na escala de milhares. E se o raio de destruição de uma bomba atômica é espacialmente limitado (cerca de 2 quilômetros), a onda de choque de terror que a segue é incomensurável. 

Em 1965, em entrevista à NBC (recentemente evocada no filme do Nolan), Robert Oppenheimer relatou sobre suas impressões ao ver a primeira explosão atômica:

Sabíamos que o mundo não seria o mesmo. Algumas pessoas riram, algumas choraram. A maioria estava em silêncio. Eu lembrei de uma passagem da escritura Hindú, Bhagavad Gita; Vishnu está tentando persuadir o príncipe de que ele deve cumprir seu dever, e para impressioná-lo, toma sua forma de vários braços e diz: ‘Agora me tornei Morte, destruidor de mundos’” (OPPENHEIMER, 2016). 

A partir de então, tal como o príncipe Hindú, toda força que ousar se opor aos Estados Unidos (e, de maneira mais geral, ao Capital) deverá se defrontar com a chantagem do destruidor de mundos, isto é, com a ameaça da morte

E é claro que não tardaria para essa onda de terror acasalar com a Ideologia dominante e gerar híbridos. 

O jovem Althusser, logo em 1946, em seu primeiro texto publicado chamado “A Internacional dos Bons Sentimentos”, foi um dos que melhor identificou e dissecou essa variante. Para ele, tratava-se de uma formação ideológica difusa, capaz de se incorporar em importantes intelectuais (ele destaca Malraux, Camus, Gabriel Marcel, Koestler), de mobilizar rádio e cinema e de conseguir apoio internacional. Seu conteúdo? Uma espécie de humanismo do terror para o qual o conjunto “homem” é definido pelo medo da morte: “Homem, conheça-te a ti mesmo: sua condição é a morte (Malraux), é ser vítima de um executor (Camus), é estar cada vez mais próximo do mundo de prisões e torturas (Koestler) ou da guerra nuclear, de sua destruição total […]” (ALTHUSSER, 1997, p. 23). 

E se toda Ideologia funciona a partir de uma interpelação (da formação de uma identidade), verifica-se, aqui, a constituição de uma identidade particular, baseada no medo, que Althusser perspicazmente denominou de proletariado do condição humana: “Que os homens aprendam, se ainda houver tempo, que proletariado da luta de classes apenas os divide e que eles já estão unidos, sem saber, no proletariado do medo da bomba, do terror e da morte, no proletariado da condição humana” (ALTHUSSER, 1997, p. 23). 

Tal formação ideológica se espalhou como um vírus nos meios comunista que, para sua desgraça, não estavam/estão existencialmente preparados para esse nível de pressão ideológica. A interpelação pelo medo os sugaria como um buraco negro para o vórtice do reformismo, “do socialismo ‘ocidental sem luta de classes” (ALTHUSSER, 1997, p. 30). 

Abandonei essa luta de classes que só divide! O que é a luta de classes frente ao perigo da morte? É hora da frente mais ampla possível. Da “frente humana” (ALTHUSSER, 1997). 

Francisco Martins Rodrigues, numa argumentação que lembra a de Althusser, associava, corretamente a nosso ver, a virada à direita na política soviética a partir de meados dos anos 50 exatamente a esse fator: “há uma relação direta bem visível entre cada um dos saltos da ofensiva terrorista da burguesia e as (…) grandes capitulações do movimento comunista. (…) A corrupção revisionista internacional dos últimos 30  anos [ele escreveu em 1985] é a réplica à ameaça americana de aniquilamento do mundo” (RODRIGUES, 2021, p. 188). 

De um lado, medo da morte, da destruição, de outro lado, virada para o oportunismo de direita. Destruição, medo e revisionismo num circuito cyberpositivo. Explosão nuclear = hora da coexistência passiva. Ou, na fórmula sintética propagada durante a Grande Revolução Cultural Proletária, “a essência do revisionismo é o medo da morte” (BADIOU, 1975, p. 76). 

Entretanto, nessa orquestra harmônica entre imperialismo e revisionismo, existia uma estranha nota fora do tom, Mao Tse-Tung. Vide algumas das inúmeras declarações do dirigente chinês sobre a questão: “eu gostaria agora de discutir o lado sombrio das coisas. (…) Precisamos nos preparar para grandes guerras. O que devemos fazer se os maníacos por guerra lançarem bombas atômicas? Deixe-os lançarem a bomba atômica!” (MAO TSE-TUNG, 2020, p. 99). Ou ainda: “não fiquem alarmados se tiver guerra. Isso apenas significaria algumas pessoas morrerem. Já vimos pessoas morrerem na guerra. A eliminação de metade da população ocorreu diversas vezes na história da China” (MAO TSE-TUNG, 2020, p. 99). Ou, finalmente,

não tenham medo. Isso não é nada, há apenas uma grande desordem sobre o mundo. Apenas pessoas morrendo. Homens eventualmente devem morrer, morrer-se-á, seja levantando-se ou curvando-se. E aqueles que não morrerem continuarão o trabalho, se metade morrer, ainda terá a outra metade. Não tenham medo do imperialismo. Não serve de nada ter medo, quanto mais medo se tem, menos entusiasmo se tem (MAO TSE-TUNG. 2021, p. 84). 

O que significam essas declarações? São, sim, tentativas de conter a massiva onda de terror difundida pela bomba atômica. Mas não só. Não se trata apenas de uma resposta conjuntural às mudanças na correlação de forças ideológicas. Estamos lidando com um elemento estruturante do pensamento maoísta. Mao, bebendo da filosofia clássica chinesa, o daoísmo em especial, travava uma relação filosoficamente consistente com a morte. O que, claro, não a impede de ser causa de um profundo estranhamento a ouvidos condicionados pelo doxa humanista da valorização da vida acima de qualquer coisa: “eu proponho que quando pessoas com mais de cinquenta anos morrerem, devemos celebrar uma festa, pois é inevitável que os homens morram; é uma lei natural” (MAO TSE-TUNG, 2020, p. 51). 

Vejamos, primeiro, o que é exatamente essa herança daoísta no pensamento de Mao sobre a morte para, em seguida, verificarmos como ela impacta no seu pensamento de maneira mais ampla. 

Na questão de suas fontes, é o próprio Mao quem nos dá a pista: “se não existisse a morte, seria insuportável. Se ainda pudéssemos ver Confúcio vivo hoje em dia, a Terra não suportaria tantas pessoas. Eu aprovo a abordagem de Zhuangzi. Quando sua esposa morreu, ele batucou em uma vasilha e cantou” (MAO TSE-TUNG, 2021, p. 127). Quem fora esse Zhuangzi (Zhuang Zhou) que Mao cita aprovativamente? Zhuagnzi, ou mestre Zhuang, foi um pensador daoísta do século IV a.C., do período dos reinos combatentes, autor do livro hoje conhecido como Zhuangzi, obra que reúne contos, poemas e reflexões a partir dos quais o mestre chinês desenvolve sua vertente particular de daoísmo. Uma vertente com muito a dizer sobre a morte.

Em linhas gerais e, necessariamente, esquemáticas, para Zhuangzi, tudo o que há é um eterno devir entre o ser e o não-ser. Tudo o que existe, natureza, humanos, é uma certa concentração de energia vital (Qi), que, novamente se dissipará para, posteriormente, se concentrar novamente. “‘A Energia Vital (Qi)’ (…) é a matéria prima do universo” (SINEDINO, 2022a, p. 92). Em outras palavras: “o mundo veio de nada” (SINEDINO, 2022a, p. 125), isto é, da infinita virtualidade do Qi e a ele retornará. A isso, chamamos de Dao. “O ‘Dao’ é majoritariamente entendido como o ‘não ser’ que dá origem ao ‘ser’” (SINEDINO, 2022a, p. 107). Ora, dentro desse quadro filosófico, o que é a morte se não um minúsculo episódio no infinito devir do Dao? Nas palavras de Zhuangzi: “não te desanimes. Para cada tocha que se apaga, há uma outra que se acende” (ZHOU, 2022, p. 178). O que há é esse ciclo infinito de nascimento-morte-nascimento. “A chegada da hora, inclusive de nossa própria, é a conclusão de um ciclo e o início de um novo” (SINEDINO, 2022a, p. 180). 

E uma vez que se tem o mínimo de familiaridade com a filosofia de Zhuangzi dissipa-se todo o estranhamento envolvendo as declarações de Mao. Citamos acima, uma passagem de Mao na qual ele sugere que se faça uma festa quando da morte de pessoas com mais de 50 anos. Vejamos, de novo, a mesma citação de maneira mais completa. Trata-se de um trecho de seu discurso para a conferência de Chengdu de 20 de março de 1958: 

Nascimento e morte são também transformadas um no outro. Vida é transformada em morte, matéria morta transformada em seres vivos. E proponho que quando pessoas com mais de cinquenta anos morrerem, devemos celebrar uma festa, pois é inevitável que os homens morram; é uma lei natural (MAO TSE-TUNG, 2020, p. 51). 

Verifica-se, aqui, claramente, o funcionamento da dialética daoísta entre vida e morte. A dissolução do peso da morte quando colocamo-la sob a perspectiva do ciclo infinito do Dao. Esse (para usarmos um termo caro a Althusser) processo sem sujeito nem fim. Eis uma das razões da tranquilidade de Mao frente à ameaça nuclear. O imortal daoísta é imune à chantagem de Vishnu

E, assim, uma vez dissolvido o tabu da morte, o pensamento de Mao toma essa relação suave com ela como um dos seus fundamentos, afetando profundamente sua própria concepção de dialética. O primeiro a reconhecer isso é ele próprio: “o povo chinês considera casamentos como eventos tristes vermelhos e funerais como eventos tristes brancos. Eu os julgo racionais. Os chineses conhecem a dialética” (MAO TSE-TUNG, 2020, p. 110). Ou ainda: “se alguém subscreve a dialética e ainda desaprova a morte, esse alguém é metafísico” (MAO TSE-TUNG, 2020, p. 110). 

O que significam tais citações? Elas apontam para o fato de que Mao formula uma dialética destruidora (MOTTA, 2021), isto é, propõe uma concepção de dialética capaz de pensar o fim, a morte. Há antagonismo e sempre algo morrerá, não existe síntese. Opostos não se conciliam, um mata o outro. Nas palavras de Mao, em sua famosa conferência sobre filosofia de 18 de agosto de 1964, “uma coisa destrói a outra, coisas emergem, se desenvolvem e são destruídas, tudo é assim” (MAO TSE-TUNG, 2021, p. 127). Comparemos tal concepção de dialética com aquelas que se fazem por leituras reformistas de Hegel, que valorizam o Aufhebung enquanto negação e conservação, superação e continuação. “‘Aufhebung’, diz Hegel, para designar a passagem do velho ao novo: anular e conservar. (…) Aquilo que morre se torna ele mesmo em seu outro” (BADIOU, 1975, p. 77). “Nada nunca é perdido” (BADIOU, 1975, p. 76). Uma dialética pensa o novo pela preservação do velho, outra o pensa pela sua destruição: “a dialética materialista [que, aqui, é sinônimo de maoísta] (…) se defronta com a perda, com o desaparecimento sem retorno. Há novidades radicais porque há cadáveres que nenhuma trombeta do julgamento jamais acordará” (BADIOU, 1975, p. 76).

Referências

ALTHUSSER, Louis. The Spectre of Hegel: early writings. Londres e Nova Iorque: Verso, 1997.

MAO TSE-TUNG. Selected Works of Mao Tse-Tung, Volume IX. Paris: Foreign Languages Press, 2021.

MAO TSE-TUNG. Selected Works of Mao Tse-Tung, Volume VIII. Paris: Foreign Languages Press, 2020.

MOTTA, Luiz Eduardo. A favor de Althusser. São Paulo: Contracorrente, 2021. 

OPPENHEIMER, Robert. Atomic Bombings of Hiroshima and Nagasaki – August 6 and 9, 1945. Youtube. 2016. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=cY8q1ky3dLY&t=21s>. Acesso em: 23 Jan 2024.

RODRIGUES, Francisco Martins. Anti-Dimitrov. São Paulo: Lavrapalavra, 2021. 

SINEDINO, Giorgio. Comentário. In: ZHOU, Zhuang. O imortal do sul da China: uma leitura cultural do Zhuangzi/Zhuang Zhou. São Paulo: Unesp, 2022a. 

SINEDINO, Giorgio. Esboço Introdutório: Por dentro de uma obra-prima da literatura chinesa. In: ZHOU, Zhuang. O imortal do sul da China: uma leitura cultural do Zhuangzi/Zhuang Zhou. São Paulo: Unesp, 2022b. 

TRUMAN, Harry S. VT2008-9-2 President Truman Announces Bombing of Hiroshima. Youtube, 22 Mar 2019. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=n_A8LPtuX5c>. Acesso em: 30 Jul 2022.

ZHOU, Zhuang. O imortal do sul da China: uma leitura cultural do Zhuangzi/Zhuang Zhou. São Paulo: Unesp, 2022.